boletim

o meio é a massagem

CREME E CASTIGO

Conheça o terrorista Noël Godin, que espalha medo na Europa com seus ataques de
torta doce.
……………………………………………….

Há infinitas formas de subversão. Mas poucas equiparam-se, em comodidade e eficiência, à torta de creme”. São palavras de Noël Godin, um distinto senhor de 50 anos, nascido na Bélgica. Desde 1969, ele e sua brigada internacional de entarteurs, como são chamados, vêm melecando os rostos de personalidades poderosas com deliciosos bolos de creme e tortas, direto das melhores confeitarias. Se o ataque fracassa ou é cancelado, eles simplesmente comem as tortas, com certa satisfação. Algumas das 22 vítimas foram a romancista Marguerite Duras, o cineasta Jean-Luc Godard, vários políticos europeus e até mesmo o todo-poderoso Bill Gates.

Só o filósofo Bernard-Henri Levy, conhecido por sua prepotência, já foi alvejado vezes. Certo dia, ele andava pelo aeroporto de Nice em companhia de sua terceira
esposa, a atriz Arielle Dombasle, vestido impecavelmente com uma
camisa da Christian
Dior. Estava sendo filmado, e sorria para as câmeras, com doçura.
Enquanto o casal
se enfileirava para o check in, sombras esquivavam-se ao fundo, segurando algo
intrigante feito de creme. No momento em que o casal apanhava os bilhetes de
embarque, três torteadores surgiram do nada, com Noël Godin liderando a turma. O
filósofo gritou: “Oh não. Oh não, de novo não” – e foi coberto de
recheios, glacê e
chantili.

As tortadas sempre são delicadas: entre os praticantes da modalidade,
é proibido o
lançamento à distância. Os torteadores apenas pousam o artefato
suavemente junto ao
rosto da vítima — mas, em geral, não recebem respostas tão sutis. Levy, por
exemplo, reagiu por meio de coléricos murros dirigidos a Noël Godin, no mesmo
instante em que uma torteadora defendia-se com mais um bocado de creme, e uma
segunda entretinha-se em despejar chocolate com cobertura de chantili
na cabeça de
Arielle ” Dombasle. “Levanta!”, ordenou o filósofo a um dos torteadores, “Ou eu
chuto a tua cabeça!”.

Os membros da brigada estão proibidos de reagir fisicamente aos ataques, mesmo
violentos. Na ocasião, a esposa de Bernard-Henri Levy unhou
vigorosamente uma das
torteadoras; já o filósofo preferiu quebrar a câmera de vídeo e socar
o cameraman no
nariz. Os “guerrilheiros” tampouco devem tentar fugir após os ataques: a polícia
retirou Noël Godin do local apenas quando ele já estava sendo sufocado
por Levy e
recebia bolsadas histéricas da atriz.

Os primeiros cinco segundos após um ataque de tortas”, postula Noël, “revelam o
caráter real da vítima”. O cineasta Jean-Luc Godard, vejam só, reagiu
com bom-humor:
retirou o cigarro da boca, lambeu lentamente o creme e ainda declarou
que aquilo era
“uma verdadeira homenagem ao cinema mudo”. Depois disso, não foi mais incomodado
pelos torteadores. “Bem despachada, a torta de creme é um acurado barômetro da
natureza humana”, constata Noël.

:: A Flor-de-Lótus Não Voltará a Crescer Em Sua Ilha ::

“Sempre disse a mim mesmo que era necessário reagir, sustentar a
subversão por meio
do humor”, declara o belga, sobre o poder das tortas de creme como armas de
guerrilha imaginativa (pois suscitam, ao mesmo tempo, comédia e
terror). Antes de
ser torteador profissional, ele já punha em prática suas idéias pela
Europa: quando
jovem, fora expulso da Faculdade de Direito por desrespeitar um
professor. Sabia-se
que o sujeito tinha ajudado a redigir a constituição do ditador
Antonio Salazar, e
mesmo assim todos estavam indiferentes. Noël e os amigos vestiram-se
de operários,
entraram na sala de conferências e, assoviando a Internacional
Comunista, despejaram
um tubo de cola direto na cabeça do mestre.

A expulsão da faculdade não calou Noël, que licenciou-se em história
do cinema na
Universidade de Lieja e logo foi contratado para trabalhar numa
revista católica,
resenhando filmes. “Comecei a publicar mentiras absurdas – primeiro aos poucos,
depois freqüentemente”. Inventava filmes que não existiam e
ilustrava-os com fotos
de parentes. Escrevia dezenas de entrevistas fictícias com cineastas,
sem deixar o
próprio quarto. Consciente de que tinha uma porção de leitores devotos, Noël
anunciava uma conversão a cada três meses, inclusive de penitentes tão
improváveis
quanto Luis Buñuel e Tennessee Williams.

Os leitores da revista “Amigos do Cinema”, em pouco tempo, foram
apresentados à obra
de gênios inteiramente insólitos, como Sergio Rossi, Aristide Beck e
Vivianne Pei, a
única diretora cega da história do cinema, autora do longa-metragem “A
Flor-de-Lótus
Não Voltará a Crescer Em Sua Ilha”. O filme da suposta diretora tailandesa foi
descrito por Noël tão vivamente que um especialista em cinema asiático chegou a
viajar à Tailândia para procurá-la.

Noël pôde continuar publicando matérias desse naipe graças a um editor
crédulo, e
também porque a revista não era distribuída fora da Bélgica. Além disso, seus
leitores não primavam por um senso crítico dos mais aguçados (até aí, nenhuma
novidade). Era quase um convite para prosseguir: o intrépido repórter cobriu o
lançamento do filme “Vegetais de Boa Vontade” (1970, Jean Clabau), no
qual Cláudia
Cardinale fazia o papel de uma endívia gigante. Resenhou também o
desenho animado
maoísta “Germinal II”, com Jean-Louis Barrault fazendo a voz de um formão.

Nas páginas da revista, Marlene Dietrich liderou expedições para
encontrar o monstro
do Lago Ness, Michael Caine pilotou um carro movido a iogurte e Louis Armstrong
confessou ter sido canibal (além de ter financiado, também, o filme
“Vegetais de Boa
Vontade”). Em entrevista exclusiva, o diretor Richard Brooks confessou que seus
filmes eram uma porcaria e ainda arrematou: “Eu sou um cretino”.

:: “Quando encontro um novo tom de cinza, sinto-me extasiado” ::

Noël Godin entrou para o negócio das tortas após escrever uma
excelente reportagem
sobre o dia em que um de seus diretores fictícios, Georges Le Gloupier, atacou
Robert Bresson com uma torta de creme. Na edição seguinte, inventou
que Marguerite
Duras, escritora amiga de Bresson, planejava uma revanche. “Dias depois, fiquei
sabendo que Duras estava mesmo vindo para a Bélgica”; foi então que resolveu
atacá-la com uma torta de verdade, no momento em que ela dissertava
sobre o tema de
seu segundo filme, Destroy, She Says. Redigiu uma matéria em que
creditava o ataque
a Le Gloupier. Em seguida, pegou gosto pelo ofício.

Já são mais de 20 os contemplados com suculentas tortas de creme na
região facial.
São escolhidas como vítimas as pessoas públicas vazias, fúteis ou simplesmente
idiotas, das mais diversas nacionalidades, que compartilhem uma parte
do poder. O
que têm em comum? Todas se levam a sério demais, acham que são importantes e não
possuem o menor senso de humor. “Acredito sinceramente que podemos
acertar o Papa”,
completa.

As tortas são essenciais para lembrar alguns cidadãos de que eles são apenas
humanos. Bill Gates, por exemplo, foi alvejado porque escolheu
trabalhar pelo status
quo, sem realmente usar sua inteligência e imaginação. Quanto a
Bernard-Henri Levy,
uma só frase dele poderia justificar as 5 tortadas: “quando encontro
um novo tom de
cinza, sinto-me extasiado”.

:: Sérios e dogmáticos ::

O ato de lançar tortas na cara é uma espécie de Esperanto visual e tem
uma linhagem
nobre, que pode ser traçada através de Jerry Lewis, Wile E. Coyote, os
irmãos Marx e
yippies como Abbie Hoffman — todos heróis de Noël, que ainda gosta de
Júlio Verne e
se considera anarquista. Para ele, o que diferencia os torteadores de muitos
revolucionários é que os últimos tendem a ser sérios demais e costumam tornar-se
insuportavelmente dogmáticos. Segundo o torteador, é exatamente o que
falta no atual
movimento “antiglobalização”: são sérios além da conta, e bolcheviques demais.
“Muitos deles são escoteiros”, presume.

Desde jovem, Noël Godin disseminou práticas de sabotagem cotidiana,
como obstruir
fechaduras, provocar erros na contabilidade, espalhar ameaças de
bomba, grudar um
naco de piche nas câmeras de vigilância. “Nunca curei-me da febre de
maio de 1968”,
diz. Ele e os colegas entarteurs sempre vestem-se de roupas esdrúxulas
(é o uniforme
oficial do time), com longas barbas falsas, óculos grossos e gravatas-borboleta.
Quando um deles foi preso, após cobrir de creme o ministro da Cultura francês, o
argumento usado no tribunal foi de que lançar tortas na cara era um
velho costume
belga. Ganhou a absolvição.

“Os intelectuais são muito sérios”, lamenta Noël, defendendo a
guerrilha criativa e
manifestando sua simpatia pelos escândalos públicos de Antonin Artaud
— como nas
vezes em que ia a restaurantes caros de Paris e usava as mãos para
comer, assustando
as senhoras respeitáveis. Exemplos assim, finaliza Noël, provam
definitivamente que
“qualquer um pode matar o poderoso através do rídiculo, tendo em mãos
uma torta de
nada”.

p.s.: Fontes fidedignas asseguram que tortas de creme de ovo são mais eficientes
quando o alvo é móvel; já as tortas-merengue de limão resistem melhor durante
ataques bruscos. Os anarquistas da brigada de São Francisco, por sua
vez, preferem
tortas de côco (como as que atiraram no economista Milton Friedman) e
de creme de
tofu (usada no ataque ao diretor da Monsanto).
………………………………………………..

LINKS

Grande reportagem no jornal Observer –
http://www.mindspring.com/~jaybab/observer.html

Reportagem na revista espanhola Babab – http://www.babab.com/no09/noel_godin.htm

Alguns links sobre os entarteus e Noël Godin –
http://www.babab.com/no09/noel_godin.htm

Leia também: a biografia de Noël Godin,”Creme e Castigo”, ainda não
disponível em
português.

Anúncios

No comments yet»

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: