boletim

o meio é a massagem

Arquivo para resistência

Como escapar do serviço militar

Caio Maniero D’Auria é um enxadrista. Calculista. Paciente. Insistente. Irritante, até. Graças a essas características, tornou-se, aos 22 anos, o primeiro brasileiro dispensado do serviço militar obrigatório por “razões políticas e filosóficas”. Na prática, significa que ele foi dispensado sem nem precisar jurar à bandeira. Para muitos, a formalidade é apenas um detalhe. Para ele, uma batalha de quase cinco anos de duração em defesa da “liberdade”.

Todos os anos 1,6 milhão de jovens alistam-se e cerca de 100 mil são incorporados ao Exército, à Marinha ou à Aeronáutica (em 2008 foram 80 mil), segundo o Ministério da Defesa. Desses, 95% declararam no alistamento desejo de servir. Os que não queriam, foram convocados por ter alguma habilidade necessária à unidade militar da região. “A Estratégia Nacional de Defesa pretende alterar esse quadro, de modo a que o serviço militar seja efetivamente obrigatório, e passe a refletir o perfil social e geográfico da sociedade brasileira”, anuncia o Ministério da Defesa, sem dar detalhes de como isso será feito.

Por ora, a única exigência feita para os dispensados é uma pastosa cerimônia de Juramento à Bandeira, tão esvaziada quanto a obrigação de executar o Hino Nacional antes das partidas de futebol em São Paulo. Ninguém reclama. Caio recusou-se.

Determinado a encontrar um meio válido de não jurar à bandeira, entranhou-se nas leis militares. Telefonou para o Comando Militar do Sudeste e soube que podia pedir para prestar um serviço alternativo e que, por não haver convênio firmado, isso resultava na dispensa automática. “Mas a secretária da Junta Militar me falou que só Testemunhas de Jeová podiam alegar objeção de consciência. Ela me mandou jurar à bandeira, mas eu estaria mentindo se jurasse dar a vida pela nação, pois jamais faria isso”, diz, com um sorriso tímido de quem mal deixou a adolescência.

De próprio punho, Caio redigiu uma “declaração de imperativo de consciência”, e declarou-se anarquista. A Junta Militar exigiu a declaração de uma associação anarquista confirmando o vínculo. Caio, então, contatou mais de vinte organizações em busca de, como diz, uma “carta de alforria”. Perdeu um ano nessa. “Os anarquistas brasileiros não tiveram a coragem de colocar em prática o que tanto pregam. A maioria está mais interessada em festinhas”, reclama. E pondera: “Acho que eles tiveram medo de ser fichados pelo Exército”.

Desiludido, encontrou na internet a organização Movimento Humanista. Enfim, sentiu que seria atendido. “Pregamos a não-violência e somos contra o serviço militar obrigatório”, diz Paulo Genovese, coordenador do grupo, que faz reuniões semanais e promove a Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência.

Diante de nova declaração de objeção de consciência, a Junta pediu dados dos integrantes e o CNPJ da organização. Três meses depois, foi preciso detalhar quais eram as incompatibilidades do movimento com o serviço militar.

Era janeiro de 2008. “Passei noites em claro redigindo. Fui pessoalmente entregar”, diz, satisfeito. Sustentou que os humanistas colocam “o ser humano como valor central”, enquanto os militares devem defender a pátria “mesmo com o sacrifício da própria vida”. E que o “repúdio à violência” é incompatível com o “amor à profissão das armas”.

Quatro anos e oito meses após se alistar, Caio pegou seu Certificado de Dispensa do Serviço Alternativo. Em 2008, apenas seis jovens foram eximidos por objeção de consciência. Nos últimos cinco anos, 232. Mas Caio foi pioneiro. “Nunca motivos políticos livraram alguém, o meu processo é o número 001/08. Abri um precedente e agora tenho onde lutar por minha liberdade e pela dos demais”, comemora ele, que é analista de dados de telemarketing. Há anos quer prestar concurso público. Agora pode.

Armas não atiram rosas

O documentário relata os acontecimentos de 9 de junho de 1997, quando pistoleiros contratados por latifundiários atacaram o acampamento do MST no Engenho Camarazal, na Zona da Mata de Pernambuco, ferindo cinco trabalhadores – inclusive duas crianças – e tirando a vida de outros dois sem-terra depois de uma tortura brutal. Mais informações: http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=1106

Rádio Muda Manifesta.
105.7 FM Livre Campinas-SP

manifesto+links+manifestações de apoio e repúdio+chamado a ações locais+nota pública da Abraço

Manifesto

Rádio Muda 3 X 1 PF+Anatel
“Nao temos nada a perder. Temos tudo.”
Sun Tzu

Os Piratas nos atacaram.
Sequestraram nosso timoneiro DJ Computer.
Hoje, dia 19/02/2009, às 5 da manhã, doze Piratas Federais (PF)
saquearam todos os equipamentos do estúdio da Rádio Muda, rádio livre que funciona há mais de 20 anos em Barão Geraldo, Campinas-SP.

Em uma ação decorrente da “Operação Silêncio”, que fechou diversas
rádios em todo o país, um bando de 14 homens, 12 agentes
federais, 2 chaveiros (um para segurar a chave e outro para rodar?),
liderados por um delegado, tomaram de assalto o estúdio a mando da juíza
substituta Fernanda Soraia Pacheco Costa. Vandalizaram o estúdio, rasgaram
cartazes e confiscaram todos os equipamentos.
Nao havia nenhum mudeiro no momento da ação sórdida.

A Rádio Muda é uma rádio que não é ilegal, nem legal, é uma rádio livre,
pois, assim como inúmeras outras, não possui fins comerciais, não
pratica proselitismo religioso nem político partidário, e atua de
maneira integrada a sua vizinhança, estabelecendo uma relação de
reciprocidade através da qual quem ouve, pode falar, ou seja, todo
ouvinte é um emissor em potencial. Espalhadas pelo Brasil e pelo mundo,
essas rádios baseiam-se na legitimidade que suas comunidades e
vizinhanças lhe conferem. Atua com baixa potência e atinge apenas uma
pequena região da cidade de Campinas. Ao invés da legalidade exigida por
leis estatais que legitimam um sistema corrupto e viciado de concessão
de radiodifusão, a legitimidade deste tipo de prática deve ser protegida
como liberdade de expressão e organização local.

Qual é o papel da radiodifusão hoje?

As rádios comerciais, consideradas legais, integram o território
nacional a partir de interesses comerciais
e culturais homogeneizantes. As rádios livres, consideradas ilegais,
permitem que a pluralidade cultural seja
livremente expressa. Tudo aquilo que não encontra
espaço na lucrativa e monopolizada mídia comercial tem a possibilidade
de vazão nos meios geridos pela própria população.
Mundialmente a mídia é controlada por 10 conglomerados. 40 empresas estão
ligadas direta ou indiretamente a eles. No Brasil, 90% da mídia é
controlada por 13 famílias. Em Campinas, a RAC (Rede Anhanguera de
Comunicação) controla os principais meios de comunicação da cidade e
região.
Centenas de rádios não comerciais espalhadas pelo Brasil e pelo mundo
atuam no sentido contrário a essa situação de monopólio, reafirmando a
capacidade de toda e qualquer pessoa de produzir informação.

Rádio Livre derruba avião?

Um dos principais argumentos contra às rádios livres e de baixa potência
é que constituem séria ameaça para tráfego aéreo e a comunicação de
emergência. Porém, nunca um acidente aéreo foi causado por este tipo de
radiodifusão. Aliás, se fosse fácil assim, com umas mil rádios
comunitárias, Sadam teria vencido a invasão de Bush no Iraque…. será
que ele não pensou nisso, ou será que esta informação “técnica” não faz
o menor sentido?

Pra quem não sabe, aviões operam em uma frequência de rádio acima da
faixa de frequência das rádio FM. Para que uma rádio FM interfira nas
transmissões aéreas de rádio, é necessário primeiro que o transmissor
esteja desregulado e sem filtros. Hoje em dia, é muito comum o uso de
transmissores que possuem filtros de harmônicos e filtros passa-faixa, que
mesmo não sendo homologado pela Anatel, está dentro da máscara de
transmissão da norma brasileira de radiodifusão, ou seja, que passou por
um teste técnico no qual um analisador de espectro comprova que fora da
frequência de transmissão o sinal é fortemente atenuado, o que comprova sua
a precisão e a capacidade de não interferência de um transmissor. O
segundo fator é a potência do transmissor.
A prática mostra que as rádios livre funcionam com transmissores de baixa
potência (potências altas significam custos altos). Comparados aos
transmissores das rádios comerciais, com potências gigantes, não
representam perigo de interferência nas comunicações aéreas, mesmo com um
transmissor não perfeitamente construído. Quem tem que
cuidar da aferição dos seus transmissores potentes são as grandes rádios
comerciais, que apresentam altos riscos de interferência na comunicação
aérea!

Piratas?

Piratas são as rádios comerciais que querem o ouro!
Não estamos atrás do lucro.

Livre?

O sistema de leis estatais prevê que a organização e concessão do direito
de uso para as frequências de rádio seja realizado por um grupo de
pessoas restrito- técnicos, especialistas, políticos e grupos econômicos.
A comunicação livre não reconhece o governo como única entidade capaz de
elaborar leis e regras relativas ao funcionamento dos meios de
comunicação.
Propomos, através da prática, a apropriação e utilização de qualquer meio
de comunicação e tecnologia.
Todas as tecnologias são e deveriam ser consideradas bens universais
destinadas ao desenvolvimento humano, sua inteligência, afeto e
comunicação.
O conhecimento não pode ser aprisionado por leis medíocres que se baseiam
em interesses mesquinhos de grupos políticos e econômicos ou mesmo de leis
que não comportam a capacidade da população de produzir suas próprias
informações, a partir de meios de comunicação geridos coletivamente.
Comunicação se realiza diariamente, nos momentos mais cotidianos. Ampliar
essa comunicação de uma pessoa ou grupo através de meios tecnológicos é
uma possibilidade e prática que amplia a democracia e a capacidade das
pessoas de se comunicarem entre si: falando, ouvindo, produzindo e
questionando.
A comunicação está em todos nós, muito antes de existirem governos e leis
que a regulamentassem: livre, intrínseca, potente e transformadora.

Conclamamos todos e todas a produzirem mais e mais meios de comunicação.

Não precisamos nos submeter ao monopólio!

Nesse carnaval, sintonize-se, atue: ações pela mídia livre espalhadas pelo
território.Organize próprias ações!

A Muda não se cala!!! Voltaremos a transmitir em breve!!

Publicações sobre a Invasão da Polícia:

http://midiaindependente.org/
http://www.brasil.agenciapulsar.org/nota.php?id=4205
http://municipe.mandioca.org/archives/246
http://mandioca.wordpress.com/
http://www.agenciapulsar.org/nota.php?id=14500
http://www.npla.de/poonal/aktuell.shtml#BRASILIEN

Manifestações de apoio endereçadas a Rádio Muda e manifestações de repúdio
endereçadas ao reitor:

“Caro Magnífico,

A rádio muda é um experimento de produção cultural coletiva organizada em
bases inovadoras que, como toda experiência de ponta bem sucedida, deveria
ser abrigada e incentivada pela universidade.
No entanto, soube essa manhã que a rádio em questão foi invadida pela
polícia federal. Onde andava a autonomia universitária e a reitoria nesse
momento? quando e como veremos a atitude de repúdio a esse fato que se
espera de nosso magnífico?
é urgente demonstrar que a universidade ainda é um refúgio para a produção
de conhecimento e de alternativas para o país em todas as áreas.
obrigado

Augusto Postigo”

“À REITORIA DA UNICAMP,

dando crédito à informação abaixo (repassada por colega do IFCH), não se
pode senão
lamentar o ocorrido e esperar as providências que a Reitoria da Unicamp –
comprometida com os valores democráticos (livre expressão de idéias e o
pluralismo)
– certamente adotará para apurar o fato e procurar evitar, no futuro, a
ocorrência
de atos semelhantes a este.
Respeitosamente,
Caio N. de Toledo
Professor colaborador IFCH”

“Em defesa da rádio muda…

Manifestações culturais devem ser preservadas…

Abraço,

Lucas.”

“Olá pessoal da Muda,

Nós do CABS (Centro Acadêmico de Engenharia Elétrica da Unicamp) gostaríamos
de dizer que sentimos muito o fato lamentável que ocorreu ontem e
gostaríamos de manifestar nosso apoio ao retorno da Muda. (…)”

“Gostaria de manifestar minha indignação quanto aos fatos ocorridos com a
Rádio
Muda. É arbritário, provavelmente ilegal, ditatorial, uma enorme baixaria.
Acho imprescindivel que a administração da Unicamp tome providências
quanto a esse “estupro” à liberdade de comunicação.
Miriam Osorio Silva de Florianópolis, Santa Catarina”
“Manifesto meu apoio em favor da Rádio Muda.

Abraço
André Kobashi”
“Apoio a rádio muda. Pela liberdade de expressão e informação.

Mário”

Chamado por ações locais pela mídia livre!

No último dia 19 de fevereiro a Polícia Federal invadiu a Rádio Muda,
rádio livre situada em Campinas e há mais de 20 ano no ar.
Em virtude desse acontecimento e pela deplorável situação atual dos meios
de comunicação no mundo,

Conclamos todos e todas a realizarem ações locais pela mídia livre nesse
período de carnaval. No embalo das pessoas que tomam as ruas, tomem os
microfones!

Transmissões, projeções, confeccção de panfletos e zines, performances,
uma conversa!

Tudo pode ser uma ação!

Divulguem no Centro de Mídia Independente e no radiolivre.org, traduzam se
puderem

e assim o calendário vai sendo montado

Assunto: Nota Pública contra o fechamento da Rádio Muda
Nota Pública
A ABRAÇO, Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – Regional
Sudeste, vém a público externar sua indignação contra o fechamento
arbitrário da Rádio Muda, ocorrida no último dia 19 de fevereiro de
2009, as 5: 30 hs da manhã dentro do Campus da Universidade estadual
de Campinas, comandada pelo delegado Federal Dr. Heitor Barbieri
Mozardo, Matrícula 17023, pelas razões que segue;
1 – Estranha o fato do Sr. Delegado utilizar um mandado de Busca e
apreensão antigo, datado de 21 de Junho de 2007, sendo que já existe
decisão posterior da 1* vara Federal de Campinas, que entende que não
se constitui crime a utilização e instação de equipamentos de
Radiodifusão sem autorização. Esta decisão posterior, resultado de
sentença proferida pela Juíza Dr. Márcia e Souza e Silva de Oliveira,
da 1 Vara Federal de Campinas, no último dia 27 de Janeiro de 2009,
cujo teor já é de conhecimento dos responsáveis pela ação, no caso o
Delegado Heitor Barbieri Mozardo;
2 – Mesmo se não houvesse posicionamanto anterior, houve flagrante
ilegalidade do Delegado em realizar a busca e apreensão da emissora,
pois no mandado foi observado que deveriam cumprir a cautela dos
artigo 245 do Código de Processo Penal, que diz o seguinte” As buscas
domiciliares serão executadas de dia, salvo se o morador consentir que
se realizem à noite, e, antes de penetrarem na casa, os executores
mostrarão e lerão o mandado ao morador, ou a quem o represente,
intimando-o, em seguida, a abrir a porta” Ou seja, o mandado foi
cumprindo fora do horário estipulado e sem que nenhum representante da
emissora estivesse presente;
3 – Sobre o fechamento de mais de 30 emissora na região de Campinas, A
ABRAÇO vém a público informar que a Polícia federal vém
sistematicamente tentando realizar o fechamento de emissoras
comunitárias, cujos processos encontram-se instruídos e aguardando
outorga do Ministério das Comunicações.
4 – A Polícia Federal vém sistematicamente nas últimas semanas
invadindo residências com mandados judiciais antigos para a realização
de busca e apreensão em locais que não existem rádios comunitárias
instaladas, fato já noticiado pela Abraço a imprensa de campinas.
5 – As ações truculentas de agentes despreparados já causaram enormes
prejuízos as pessoas vítimas de violência, como um representante de
uma emissora agredido fisicamente pelo agente conhecido como Valente,
na ocasião de fechamento de uma emisssora no ano passado, a omissão de
socorro de vários agentes em outra ocasião, em decorrência da violenta
ação policial contra uma senhora que teve uma metralhadora apontada e
engatilhada sobre a sua cabeça, que passou mal e os agentes não
prestaram o auxilio necessário, inclusive se negando a chamar o SAMU e
uma ameaça do Agente conhecido como Fábio, que ameaçou um dos
coordenadores da ABRAÇO dizendo que iria forjar um flagrante de
ílícito para assim prendê-lo.
6 – Lamentamos profundamente que a Polícia federal tenha tanta garra
para prender militantes de um movimento social legítimo, organizado
nacionalmente e que tenha como fundamental objetivo valorizar a
cultura e a democracia em nosso país.
7 – Como se fala em números, a maioria de origem duvidosa, desafiamos
a Polícia Federal de Campinas a apresentar os números oficiais de
operações de combate ao narcotráfico, lavangem de dinheiro, corrupção
e principalmente a situação do assassinato do prefeito Toninho, cuja
responsabilidade pelas investigações é da própria Polícia federal.
8 – A ABRAÇO também estranha que a Polícia Federal ainda não tenha
executado ações de fechamentos das rádios comerciais irregulares que
funcionam na cidade de Campinas, cujas outorgas encontram-se vencidas
há vários anos, cuja denúncia encaminhamos ao Delegado Geral da
polícia Federal de Campinas no mês de Janeiro. Será que a Polícia
Federal age de Acordo com a frase “para os amigos tudo, para os
inimigos a Lei”.
A ABRAÇO, estará em comitiva a Brasília no Próximo dia 02 de Março, em
reuniões na Corregedoria da Polícia Federal, na Comissão de Direitos
Humanos da Câmara e na Presidência da República para encaminhar
oficialmente as denúncias por nós ofertadas neste manifesto.
Campinas, 20 de Fevereiro de 2009.
Sem mais,
Jerry de Oliveira
Coordenador Sudeste da Associação Brasileira de Radiodifusão
Comunitária – ABRAÇO
jerry.deoliveira@hotmail.com
19 9731 7632
19 3739 4600

Irlandês desafia o capitalismo vivendo um ano sem dinheiro

Numa manobra arrojada, economista demonstrará empiricamente que “os princípios que regem o capitalismo estão errados e que não é necessário gastar nenhuma libra para se viver com dignidade”. Se o exemplo for imitado, o capitalismo acaba sem revolução, acaba por inanição.

Mark Boyle é um economista irlandês de 29 anos que quer mostrar que os princípios que regem o capitalismo estão errados e que não é necessário gastar nenhuma libra para se viver com dignidade.

Boyle tentará, a partir de hoje e durante pelo menos um ano, viver em um trailer em Bristol, no oeste da Inglaterra, com um fogão a lenha, um chuveiro com painel solar, uma bicicleta e um buraco no chão como banheiro.

Em entrevista à Agência Efe antes de iniciar o desafio, o irlandês também disse que comer não será um problema, já “que a sociedade joga tanta comida no lixo que basta se aproximar de caçambas de supermercados para se alimentar”.

“E se me cansar de fuçar as caçambas, há lançamentos de livros e inaugurações de exposições de arte suficientes para poder encher a barriga com canapés e bebida de graça”, declarou o empresário, que faz parte da ONG
Freeconomy, que promove a troca e a eliminação do dinheiro como estilo de vida.

O desafio do economista começa coincidindo com o “Buy Nothing Day” (“Dia de Não Comprar Nada”, em tradução livre), celebrado no mundo todo para chamar a atenção para os excessos da sociedade de consumo em um mundo no qual milhares de pessoas morrem de fome todos os dias.

Boyle também vai plantar alimentos para “apreciar o valor real do que come”: “Principalmente batatas, como um bom irlandês”.

“As sociedades ocidentais jogam fora um terço da comida que consomem. Se as pessoas produzissem seu próprio alimento, teriam muito mais cuidado. O mesmo acontece com a água, se nós é que tivéssemos que mantê-la limpa,
não a sujaríamos”, disse.

O problema verdadeiro “é que esta sociedade nos deixou completamente insensíveis sobre o que representa
consumir”: “Não respeitamos em absoluto a energia gasta nas coisas que compramos, portanto não temos nenhum problema em desprezá-las”.

O único medo de Boyle em seu objetivo de passar 365 dias sem tocar em uma moeda são os imprevistos: uma doença, uma lesão ou algum problema com sua família, que vive em Donegal, no norte da Irlanda.

O empresário ficará em contato com os parentes, já que não abrirá mão de seu telefone celular nem de seu computador portátil, embora só vá utilizá-los quando suas baterias, alimentadas por energia solar,
permitirem.

Como meio de transporte, o irlandês vai usar uma velha bicicleta com um carrinho preso, com a qual não descarta “passar as férias de Natal com a família”. “Só o mar fica no meu caminho”, brincou.

Neste sábado, cerca de 400 pessoas foram apoiar Boyle no início do desafio, que o empresário disse que enfrentará “como uma questão de sobrevivência”, já que viverá “sem saber” o que terá para
“comer no dia seguinte”.

Desta vez, o irlandês espera ter mais sucesso que em sua aventura anterior, quando tentou ir a pé e sem
dinheiro até a Índia, sem, no entanto, passar de Calais (França), onde as dificuldades para se comunicar com os franceses o fizeram voltar para casa.

fonte: http://midiaindependente.org/pt/blue/2008/11/434673.shtml

516 anos de opressão, mas o/as Mapuche seguem resistindo ante o capitalismo brutal!

[Chile] Enquanto no Brasil se comemora o dia da criança…

No dia 12 de outubro, por ocasião do 516º aniversário da invasão dos conquistadores/depredadores espanhóis à América, cerca de cinco mil pessoas marcharam pelo centro de Santiago em protesto contra as políticas oficiais relativas à sua etnia. Demandaram a liberdade dos indígenas presos por associação ilícita e incêndios florestais no sul. Também exigiram que 12 de outubro, chamado de Dia da Hispanidade ou Dia da Raça, deixe de ser um dia festivo, pois para os indígenas essa data representa o início da conquista colonial espanhola. Por isso preferem chamá-lo de Dia da Resistência Mapuche.

Contra a usurpação da terra em benefício do capital

Apesar de que fossem cumpridos 516 anos da invasão dos conquistadores/predadores espanhóis, que mais que representar uma simples coroa, foram ferramentas quase históricas do forçoso (para alguns) processo de acumulação e extração das riquezas exigidas para a construção do capital, novamente foi levada a cabo no centro de Santiago a tradicional marcha que recorda esta data aterradora, onde a maioria dos povos originários do continente foi assassinada nas mãos de sujeitos ambiciosos pelas riquezas. A chamada feita por diferentes organizações e comunidades Mapuche, que permanecem resistindo, ontem como hoje, contra a aliança entre Empresários e o Estado Chileno Terrorista, desde às 11 horas teve a adesão de mais de 5 mil manifestantes, que
marcharam pela Alameda desde a praça Itália até o Cerro Huelen. As diversas comunidades, organizações e coletividades que apóiam e lutam pela causa do povo Mapuche, fizeram a caminhada, recordando este 12 de outubro não somente aos lutadores, caídos, torturados e seqüestrados pelo Estado Chileno, mas a longa luta
pela construção de um País nação Mapuche, onde as lógicas mercantis pelo menos sejam expulsas dos territórios ancestrais e o uso dos hectares de terra que hoje as empresas Florestais têm usurpado seja devolvido para despojá-las da pura figura de mercadoria que aqueles capitalistas lhe concederam, questionando ativamente os
princípios mercantis da relação de dominação capitalista, como é a propriedade, a identidade e a cultura de um povo, de um povo que não está disposto a comprometer nem sua cultura, nem muito menos sua terra.
Mais infos e fotos, aqui: http://www.hommodolars.org/web/spip.php?article822
agência de notícias anarquistas-ana / cmi-brasil

Justiça para os Terena

REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS

Vamos exercer nossa cidadania! Assine a petição: Justiça para os Terena
Aos dias dezessete do mês de junho do ano de dois mil e oito, às 05:30
horas da manhã, chegaram os policiais da Policia Estadual e da ROTAI em um
ônibus lotado desses policiais.

Haviam: crianças, mulheres, gestantes, idosos que ali estavam dormindo. Os
policiais chegaram e quando estavam conversando com todas as pessoas ali
presentes na retomada, um policial bruto puxou uma taquara na mão da anciã
Julia Meira Faustino de 54 anos de idade derrubando-a imediatamente no
chão. Nós fomos proteger nossa anciã e começamos a apanhar de todos os
policiais ali presentes.

Os policiais começaram arrebentando todas as barracas, colocando fogo em
tudo que ali estava.

Empurraram mulheres, crianças e idosos, puxaram cabelos de mulheres e
pisaram e chutaram as roupas dos indígenas.

Clique seguramente no link, veja mais sobre este absurdo e assine essa
petição:

http://www.petitiononline.com:80/grumin12/petition.html

Rede GRUMIN de Mulheres Indígenas
Eliane Potiguara
Escritora Indígena – Ativista
Membro Acadêmico do Projeto Cultural ABRALI

Os abraçadores de árvores

Com tanto desmatamento, destruição dos vários biomas terrestres brasileiros, como a Floresta Amazônica, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga… no geral, não há efetivamente um movimento no Brasil como os “abraçadores de árvores”? Será que está em extinção por essas bandas os ecologistas de ação direta? O ecologismo politicamente correto, oficialista, dos tribunais “públicos”, domesticou a radicalidade? Talvez eu esteja dando voltas sobre o mesmo assunto. É que as coisas não mudam… Mas…

Um pouco de história para inspirar…

Os abraçadores de árvores é um dos mais notáveis e originais exemplos de ação direta. Já nos anos 20, na Califórnia, nos EUA, surgiu um grupo de mulheres, as ladies conservationists (senhoras conservacionistas), que se acorrentava nas árvores para impedir a ação dos madeireiros.

Mas foi a partir do movimento Chipko nos anos 70, quando as mulheres das aldeias himalaias do norte da Índia decidiram abraçar-se às árvores para impedir a ação das madeireiras que o movimento ganhou força. Estimulados por vários grupos ambientalistas internacionais, o movimento conseguiu um certo sucesso e bastante impacto junto à mídia.

O acontecimento deu origem a outros movimentos de “abraçadores de árvores” (tree-huggers) ao redor do mundo. No fim
da década de 80, na Austrália, um grupo, de pessoas subiu nas árvores para defender a última floresta de eucaliptos nativos do mundo, ali ficando por vários dias. Com a ajuda do efeito de suas ações na imprensa, os abraçadores conseguiram rescindir o contrato do governo australiano com as madeireiras japonesas.

Nos anos 90, na Inglaterra, surgiram os tree-sitters, ou dongas, com outra estratégia: se algemar nas árvores, se acorrentar nas pedras ou acampar na região a ser atingida, para impedir a construção de anéis rodoviários que atravessariam áreas de proteção especial.

Os acampamentos dos sitters (numa tradução livre, “os pregados no chão”) duraram vários anos, provocando uma reação violenta das autoridades inglesas, que acabaram expulsando-os na força. Em 1997, um caso que repercutiu muito na imprensa internacional foi o da estadunidense Julia Borboleta Hill, que passou dois anos vivendo em cima de uma árvore à qual deu o nome de Luna, numa tentativa de frustrar os planos da madeireira Pacific Lumber de destruir uma floresta de sequóias da Califórnia.

Outro fato recente que ganhou espaço na mídia, em 2006, envolveu a cantora Joan Baez, que juntamente com Julia, subiram no topo de uma árvore em uma tentativa de evitar a demolição de um horto comunitário de 14 acres com frutas e vegetais no
sul de Los Angeles.

Hoje, este tipo de ação direta continua à mil em várias partes do mundo. Entre no site da Earth First! (www.earthfirst.org)
que terás muitas notícias atualizadas.

Moésio Rebouças // Fonte: Terra (para a lista CMI-Brasil)

Via Campesina e urbanos realizam mobilização no Walmart e Carrefour no ES

Cerca de 300 integrantes da Via Campesina e de movimentos urbanos, como a
Intersindical, Coordenação dos Movimentos Sociais, Passe Livre e movimento
estudantil realizaram uma mobilização, na tarde de hoje (10/06), em frente
às redes estrangeiras de supermercado, Walmart e Carrefour. A atividade
ocorreu na capital do estado, Vitória, e faz parte da Jornada de Lutas da
Via Campesina.

A atividade iniciou-se com uma caminhada pela cidade, acompanhada de um
panelaço, e foi marcada por um protesto em frente a essas duas redes de
supermercado, que detêm o controle do comércio mundial de alimentos, desde o
preço até os fornecedores. Em frente ao Walmart, foi montada uma mesa com
alimentos da agricultura camponesa, a fim de demonstrar que essa é a
alternativa para conter a grande alta no preço dos alimentos.

O ato questionava justamente a alta no preço dos alimentos e o controle das
empresas estrangeiras no território brasileiro.

Na parte da manhã, uma mobilização no município de Montanha, norte do ES,
marcou o protesto da Via Campesina em relação à expansão da cana-de-açúcar
no estado.

*Por que estamos mobilizados *
*Queremos produzir alimentos*
***Contra o agronegócio e em defesa da agricultura camponesa*

O atual modelo econômico, baseado no agronegócio e no capital financeiro,
quer transformar os alimentos, as sementes e todos os recursos naturais em
mercadoria para atender os interesses, o lucro e a ganância das grandes
empresas transnacionais.

Para isso, esses grupos econômicos se apropriam de terra, águas, minerais e
biodiversidade, privatizando o que é de todos. Além disso, desmatam as
florestas e deterioram os solos com a monocultura. Também aumentam a
exploração dos trabalhadores, precarizam, retiram e desrespeitam os direitos
trabalhistas, causam desemprego, pobreza e violência.

Dessa forma, o agronegócio promove a concentração da riqueza nas mãos dos
mais ricos, especialmente banqueiros e empresas transnacionais, enquanto
aumenta a desigualdade e a pobreza da população. É necessário e urgente
combater essa lógica opressora e destrutiva, que apresentamos nos seguintes
pontos:

*I – Denunciamos*

Denunciamos o atual modelo agrícola por que:

1. Favorece os interesses das empresas transnacionais, que compõem aliança
com os latifundiários para controlar a nossa agricultura e obter grandes
lucros na produção e comercializaçã o dos alimentos e na venda das sementes
e insumos agrícolas.

2. Prioriza o monocultivo em grandes extensões de terras, que afeta o meio
ambiente, deteriora os solos e exigem o uso grandes quantidades venenos.

3. Estimula a monocultura de eucalipto e pínus, que destroem a
biodiversidade, causam poluição ambiental, geram desemprego e promovem a
desagregação social das comunidades camponesas, indígenas e quilombolas.

4. Incentiva a produção de etanol para exportação, promovendo a ampliação do
plantio da monocultura da cana-de-açúcar e, conseqüentemente, causando a
elevação dos preços dos alimentos e a concentração da propriedade da terra
por empresas estrangeiras.

5. Difunde o uso das sementes transgênicas, que destroem a biodiversidade,
eliminam as nossas sementes nativas, podem causar danos à saúde dos
camponeses e consumidores de alimentos e transfere para as transnacionais o
controle político e econômico das sementes.

6. Promove o desmatamento dos nossos biomas, de modo especial da floresta
amazônica e do cerrado, e a destruição dos babaçuais, através da expansão da
pecuária, soja, eucalipto e cana, juntamente como a exportação de madeiras e
minérios.

*II- Somos contra*

As transnacionais, os latifundiários e um grupo de políticos, partidos e
parlamentares que defendem interesses econômicos e querem aprovar projetos
que vão piorar ainda mais esse quadro e, por isso:

1. Somos contra a lei de concessão das florestas públicas, que significa a
privatização da biodiversidade, e o projeto de lei nº 6.424/05, que reduz a
área da reserva legal da Amazônia de 80% para 50%, de autoria do senador
Flexa Ribeiro (PSDB-PA).

2. Somos contra a Medida Provisória nº 422/08, que legaliza áreas de até
1500 hectares, invadidas por latifundiários na Amazônia, quando a
Constituição determina apenas até 50 hectares.

3. Somos contra a Medida Provisória que desobriga o registro em carteira até
três meses de trabalho. Condenamos a existência impunemente do trabalho
escravo, da exploração do trabalho infantil e da falta de garantia aos
direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores rurais.

4. Somos contra o Projeto de Emenda Constitucional nº 49/06, que propõe
diminuir a extensão da faixa de fronteiras para beneficiar empresas
transnacionais e grupos econômicos internacionais, de autoria do senador
Sérgio Zambiasi (PTB-RS) .

5. Somos contra o projeto de transposição do Rio São Francisco, que visa
apenas beneficiar o hidronegócio e a produção para exportação e não atende
as necessidades das populações que vivem na região do semi-árido nordestino.

6. Somos contra a privatização das águas, que passam a se monopolizadas por
empresas transnacionais como Nestlé, Coca-Cola e Suez.

7. Somos contra o atual modelo energético, baseado na construção de grandes
hidrelétricas – principalmente na Amazônia -, que entrega o controle da
energia às grandes corporações multinacionais e favorece as grandes empresas
que mais consomem energia.

*III – Defendemos
*
Estamos mobilizados e vamos lutar para mudar essa realidade. Por isso,
queremos:

1. Construir um novo modelo agrícola, baseado na agricultura camponesa, na
Reforma Agrária, na distribuição de renda e fixação das pessoas no meio
rural.

2. Combater a concentração da propriedade da terra e de recursos naturais,
fazendo uma ampla distribuição dos latifúndios, com a definição de um
tamanho máximo para a propriedade da terra.

3. Garantir que a agricultura nacional seja controlada pelo povo brasileiro,
assegurando a produção de alimentos, como uma questão de soberania popular e
nacional, incentivando as agroindústrias cooperativadas e o cultivo de
alimentos sadios.

4. Diversificar a produção agrícola, na forma de policulturas, respeitando o
meio ambiente e usando técnicas de produção da agroecologia.

5. Preservar o meio ambiente, a biodiversidade e todas as fontes de água,
com atenção especial ao Aqüífero Guarani, combatendo as causas do
aquecimento global.

6. Desmatamento zero na Amazônia e nos demais biomas brasileiros,
preservando a riquezas naturais e usando os recursos naturais de forma
adequada e sustentável, em favor do povo. Defendemos o direito coletivo da
exploração dos babaçuais.

7. Preservar, difundir, multiplicar e melhorar as sementes nativas, dos
diferentes biomas, para garantir o seu acesso a todos os agricultores.

8. Lutar pela aprovação imediata da lei que determina expropriação de todas
as propriedades com trabalho escravo e a instituição de pesadas multas aos
latifundiários que não cumprem as leis trabalhistas e previdenciárias.

9. Exigir a implementação da política proposta pela Agência Nacional de
Águas, que prevê obras e investimentos em cada município do semi-árido,
necessárias para resolver o problema de água da população da região.

10. Impedir que a água se transforme em mercadoria e garantir seu
gerenciamento como um bem público, acessível a toda a população.

11. Assegurar um novo modelo energético que garanta a soberania energética,
que priorize o desenvolvimento de todos, utilizando o uso racional da
energia hidráulica em pequenas usinas, com a produção de agrodiesel e álcool
pelos pequenos agricultores e suas cooperativas.

12. O governo federal deve autorizar o Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) a retomar a regularização, com maior
celeridade, de todas as áreas pertencentes aos quilombolas.

13. Promover a demarcação imediata de todas as áreas indígenas e expulsão de
todos os fazendeiros invasores, em especial da Raposa Serra do Sol e das
áreas dos guarani no Mato Grosso do Sul.

O governo Lula precisa honrar os compromissos assumidos para a realização da
Reforma Agrária, cumprindo seu programa político, assinado em julho de 2002,
assentando imediatamente todas as famílias acampadas e construindo no mínimo
100 mil casas por ano no campo para evitar o êxodo rural. A nossa luta é
pela construção de uma sociedade justa, com igualdade e democracia, onde a
riqueza é repartida com todos e todas.

*VIA CAMPESINA**
ASSEMBLÉIA POPULAR*
—————————- Original Message —————————-
Subject: Via Campesina e urbanos realizam mobilização no Walmart e
Carrefour no ES
To:CMI-Brasil

A natureza não é muda

Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os
direitos da natureza à nova Constituição do Equador

O mundo pinta naturezas mortas, sucumbem os bosques naturais, derretem os pólos, o
ar torna-se irrespirável e a água imprestável, plastificam-se as flores e a comida,
e o céu e a terra ficam completamente loucos.

E, enquanto tudo isto acontece, um país latino-americano, o Equador, está
discutindo uma nova Constituição. E nessa Constituição abre-se a possibilidade de
reconhecer, pela primeira vez na história universal, os direitos da natureza.

A natureza tem muito a dizer, e já vai sendo hora de que nós, seus filhos, paremos
de nos fingir de surdos. E talvez até Deus escute o chamado que soa saindo deste
país andino, e acrescente o décimo primeiro mandamento, que ele esqueceu nas
instruções que nos deu lá do monte Sinai: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”.

Um objeto que quer ser sujeito
Durante milhares de anos, quase todo o mundo teve direito de não ter direitos.

Nos fatos, não são poucos os que continuam sem direitos, mas pelo menos se
reconhece, agora, o direito a tê-los; e isso é bastante mais do que um gesto de
caridade dos senhores do mundo para consolo dos seus servos.

E a natureza? De certo modo, pode-se dizer que os direitos humanos abrangem a
natureza, porque ela não é um cartão postal para ser olhado desde fora; mas bem
sabe a natureza que até as melhores leis humanas tratam-na como objeto de
propriedade, e nunca como sujeito de direito.

Reduzida a uma mera fonte de recursos naturais e bons negócios, ela pode ser
legalmente maltratada, e até exterminada, sem que suas queixas sejam escutadas e
sem que as normas jurídicas impeçam a impunidade dos criminosos. No máximo, no
melhor dos casos, são as vítimas humanas que podem exigir uma indenização mais ou
menos simbólica, e isso sempre depois que o mal já foi feito, mas as leis não
evitam nem detêm os atentados contra a terra, a água ou o ar.

Parece estranho, não é? Isto de que a natureza tenha direitos… Uma loucura. Como
se a natureza fosse pessoa! Em compensação, parece muito normal que as grandes
empresas dos Estados Unidos desfrutem de direitos humanos. Em 1886, a Suprema Corte
dos Estados Unidos, modelo da justiça universal, estendeu os direitos humanos às
corporações privadas. A lei reconheceu para elas os mesmos direitos das pessoas:
direito à vida, à livre expressão, à privacidade e a todo o resto, como se as
empresas respirassem. Mais de 120 anos já se passaram e assim continua sendo.
Ninguém fica estranhado com isso.

Gritos e sussurros
Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da
natureza à nova Constituição do Equador.

Este país sofreu numerosas devastações ao longo da sua história. Para citar apenas
um exemplo, durante mais de um quarto de século, até 1992, a empresa petroleira
Texaco vomitou impunemente 18 bilhões de galões de veneno sobre terras, rios e
pessoas. Uma vez cumprida esta obra de beneficência na Amazônia equatoriana, a
empresa nascida no Texas celebrou seu casamento com a Standard Oil. Nessa época, a
Standard Oil, de Rockefeller, havia passado a se chamar Chevron e era dirigida por
Condoleezza Rice. Depois, um oleoduto transportou Condoleezza até a Casa Branca,
enquanto a família Chevron-Texaco continuava contaminando o mundo.

Mas as feridas abertas no corpo do Equador pela Texaco e outras empresas não são a
única fonte de inspiração desta grande novidade jurídica que se tenta levar
adiante. Além disso, e não é o menos importante, a reivindicação da natureza faz
parte de um processo de recuperação das mais antigas tradições do Equador e de toda
a América. Visa a que o Estado reconheça e garanta o direito de manter e regenerar
os ciclos vitais naturais, e não é por acaso que a Assembléia Constituinte começou
por identificar seus objetivos de renascimento nacional com o ideal de vida do
sumak kausai. Isso significa, em língua quechua, vida harmoniosa: harmonia entre
nós e harmonia com a natureza, que nos gera, nos alimenta e nos abriga e que tem
vida própria, e valores próprios, para além de nós.

Essas tradições continuam miraculosamente vivas, apesar da pesada herança do
racismo, que no Equador, como em toda a América, continua mutilando a realidade e a
memória. E não são patrimônio apenas da sua numerosa população indígena, que soube
perpetuá-las ao longo de cinco séculos de proibição e desprezo. Pertencem a todo o
país, e ao mundo inteiro, estas vozes do passado que ajudam a adivinhar outro
futuro possível.

Desde que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a conquista
européia castigou a adoração da natureza, que era pecado de idolatria, com penas de
açoite, forca ou fogo. A comunhão entre a natureza e o povo, costume pagão, foi
abolida em nome de Deus e depois em nome da civilização. Em toda a América, e no
mundo, continuamos pagando as conseqüências desse divorcio obrigatório.

Eduardo Galeano é escritor uruguaio, autor de “A Escola do Mundo ao Avesso”

Publicado originalmente no semanário Brecha, do Uruguai.

jpereira / Contribuidores: Eduardo Galeano

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/a-natureza-nao-e-muda

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fonte:
indymedia uk